3 – Termos Gerais da Civilização Viking:
Esta parte da obra
remete-se a explicar melhor os conceitos básicos dos povos Norueguês e
Dano, conhecidos como Vikings. Veremos aqui como era sua forma de
governo, sua religião, seus hábitos, suas características populacionais e
até seu desenvolvimento sócio-econômico.
3.1 – Miscelânea de Reinos:
Como
já havia mencionado, no início do processo de ocupação da Jutlândia
pelos Danos, provavelmente cada povoado formava um Reino distinto, sendo
portanto praticamente impossível precisar quantos Reinos haviam de fato
na Jutlândia e ilhas Bálticas (no mais das vezes não me referirei mais
aos Danos da Suécia, nem tão pouco aos Suecos), é certo que havia
dezenas deles, todos muito atrasados, com suas populações vivendo num
sistema político Monárquico, semelhante a uma Monarquia Parlamentarista,
o qual explicarei mais adiante.
Típico fiorde da Noruega e
Jutlândia. Já na Noruega, existiam três grandes regiões: os fiordes
Ocidentais, mais ao norte; Bergen, no oeste e sudoeste; e o fiorde Vik,
no sudeste e sul. A situação dos fiordes Ocidentais e do fiorde Vik era
bem semelhante a situação da Jutlândia e das ilhas Bálticas, apenas na
região de Bergen parece ter havido uma centralização mais precoce dos
povoados locais sob o domínio da cidade de Bergen.
No início do
século VI, no fiorde Vik, foi fundada a cidade de Oslo (atual capital da
Noruega). Era uma cidadezinha agrícola, mais próxima de um vilarejo
feudal do que de um burgos. No entanto, seu povo começou a exercer certa
influência sobre os povos vizinhos e gradualmente os foi submetendo ao
seu domínio, o que provocou no final do século VII e começo do VIII, a
centralização da região sob o domínio de Oslo. Tanto que o fiorde Vik
também é chamado de Oslo.
Porém, o frio intenso e a conseqüente
semi-esterilidade do solo, além da superpopulação (a população
Norueguesa chegava a cerca de dois milhões de habitantes no início da
Era Viking) fizeram com que os povos do fiorde Vik quisessem sair de lá,
rumo a lugares mais quentes e de solo mais fértil.
A palavra Viking
propriamente dita quer dizer: o habitante do fiorde Vik. Portanto, se
analisarmos sob esta perspectiva, apenas estes seriam Vikings. Porém
como os reides eram realizados por Noruegueses (inicialmente do fiorde
Vik, mas depois também das outras regiões da Noruega) e Danos
(posteriormente chamados Dinamarqueses), então muitos tentam justificar a
palavra Viking de outras formas, como por exemplo a palavra Islandesa
vik, que quer dizer baía, ou regato, sendo assim, um Viking é alguém que
vive numa baía ou regato. Há também a palavra anglo-saxônica wic, que
quer dizer acampamento, sendo assim, um Viking seria alguém que acampa
de tocaia.
De qualquer forma, os Vikings não adotavam esta
denominação, eles se chamavam pelo seu respectivo lugar de origem (podia
ser o fiorde Vik, a Dinamarca, ou até mesmo uma simples aldeia). Nem
mesmo os povos da época os chamavam de Vikings. Os povos que lhes eram
contemporâneos lhes chamavam de Nórdicos.
3.2 – Política:
Os
povos conhecidos como Vikings manifestavam uma forma política
semelhante. Não se sabe se esta forma de governo era própria de todos os
Escandinavos e depois se difundiu também para os Danos, ou se ela era
própria da cidade de Oslo e difundiu-se segundo sua expansão. Porém, a
primeira hipótese é mais aceitável, visto que Oslo não chegou a formar
um verdadeiro Império, pois não dominou a Escandinávia.
A
característica mais marcante dos povos Vikings no que diz respeito a sua
política é que todos eles adotavam a Monarquia, mas na grande maioria
dos casos, uma Monarquia em moldes atuais, ou seja, semelhante às
Monarquias Parlamentares de hoje em dia.
Os Reis tinham poder
absoluto no que dizia respeito às guerras, regiões dominadas e tudo que
tivesse ligação com os domínios de seu Reino. Porém, ele não podia criar
leis, ou mesmo julgar pessoas, estas tarefas eram delegadas às
Althings, ou simplesmente Things. As Althings eram uma reunião de todos
os homens (mulheres não participavam) livres (escravos não participavam)
e adultos (crianças não participavam) do Reino. Em cada localidade do
Reino existia uma Althing, o que significa que mesmo no caso de domínios
pequenos, as leis e o sistema judicial poderia variar de uma cidade ou
região, para outra, dentro de um mesmo Reino. O Rei só poderia tratar da
economia e de assuntos militares das regiões dominadas.
Na
realidade, as sociedades Vikings tinham um sistema político semelhante
às Democracias Gregas, pois salvo a exceção da existência de um Rei,
cada região se autogovernava através de seus cidadãos (como na Grécia
antiga, o termo cidadão não tem o mesmo significado que hoje, pois nem
todos os habitantes eram cidadãos).
A sucessão Real era sempre
conturbada, os homens mais poderosos do Reino travavam guerras de
influência e, às vezes de fato, para ver quem iria suceder o Rei morto,
já que a sucessão hereditária só foi instituída no século XIV.
Entretanto, o fato de os poderosos escolherem o novo Rei não implicava,
como veremos a seguir, na exclusão dos filhos do Rei da sua linha de
sucessão. Pelo contrário, muitas vezes o filho do Rei morto herdava seu
trono, ou por se acreditar que ele teria os mesmos valores admirados no
pai, ou então porque este (o Rei) deixara homens de confiança que
assegurariam ao filho o trono após sua morte.
Essa situação era mais
comum quando o Rei morria em campo de batalha, pois devido a
necessidade de se coroar outro Rei rapidamente (para não desorganizar as
tropas), escolhia-se o filho do Rei como seu sucessor.
3.3 – As sociedades Vikings:
Os povos Vikings, assim como tinham uma mesma organização política, também compartilhavam uma mesma composição sociocultural.
A língua falada pelos Vikings era a mesma, seu alfabeto também era o mesmo: o Alfabeto Rúnico.
As
sociedades estavam divididas, de um modo geral, da seguinte maneira: O
Rei estava no ápice da Pirâmide; abaixo dele estavam os karls, homens
ricos e grandes proprietários de terras (os karls não eram nobres, pois
nas sociedades Vikings não havia nobres); abaixo dos karls havia os
jarls, ou seja, o povo, livres, mas sem posses ou com poucas
propriedades, geralmente pequenos comerciantes ou lavradores. Os jarls
compunham o grosso dos exércitos Vikings e tinham participação nas
Althings; abaixo dos jarls, havia os thralls, escravos. Eles geralmente
eram prisioneiros de batalhas, mas podiam ser (dependendo da decisão da
Althing da região) escravos por dívidas ou por crimes, seus
proprietários tinham direito de vida e morte sobre eles.
Outro fiorde típico da Noruega e Jutlândia. A maior parte dos povoados
Vikings eram fazendas pequenas, com entre cinqüenta e quinhentos
habitantes. Nessas fazendas, a vida era comunitária, ou seja, todos
deviam se ajudar mutuamente. O trabalho era dividido de acordo com as
especialidades de cada um. Uns eram ferreiros, outros pescadores (os
povoados sempre se desenvolviam nas proximidades de rios, lagos ou na
borda de um fiorde), outros cuidavam dos rebanhos, uns eram artesãos,
outros eram soldados profissionais, mas a maioria era agricultora. As
semeaduras ocorriam tão logo a primavera começava, pois os grãos
precisavam ser colhidos no final do verão para que pudessem ser
armazenados para o outono e inverno. Durante o inverno, as principais
fontes de alimentos eram a carne de gado e das caças que eles obtinham.
No verão o gado era transportado para as montanhas para pastar longe das
plantações.
Nas fazendas, as pessoas moravam geralmente em grandes
casarões comunitários. Geralmente esses casarões eram habitados pelas
famílias. Por exemplo: três irmãos, com suas respectivas esposas, filhos
e netos.
As mulheres tinham a função de ajudar os maridos, além de
cozinharem e fazerem as roupas para toda a família. Quando os maridos se
ausentavam caçando ou guerreando (não só os soldados profissionais
lutavam nas guerras, o grosso dos contingentes era de homens do povo),
as mulheres se tornavam as chefes do lar, não só defendendo-o contra
invasores e bandidos, mas também comerciando com os mercadores.
As
sociedades Vikings eram monogâmicas e o núcleo familiar era como o das
sociedades Cristãs, com o homem ocupando o lugar de chefe da casa, tendo
inclusive um assento diferenciado (aonde somente ele podia sentar).
Reconstruções de casas da época Viking. O telhado era recoberto de
turfa (tipo de grama) para proteger os moradores contra o frio. Elas
eram compostas de um único cômodo onde todos dormiam, comiam, as
mulheres costuravam... Havia uma lareira no centro do cômodo, cuja saída
era no meio do telhado, como não havia chaminé, a casa devia ser
enfumaçada e os incêndios freqüentes. As campanhas militares eram
geralmente no inverno, pois assim os homens do povo podiam integrar os
exércitos sem terem prejuízos maiores, pois teriam feito as colheitas em
suas fazendas. A arquitetura variava de acordo com a região ocupada, ou
seja, dependendo do frio e dos recursos naturais disponíveis as casas e
outras construções eram feitas com um ou outro tipo de madeira. Aliás, a
madeira era a principal matéria prima para as construções Vikings (o
que dificultou as chances de achados arqueológicos, pois a madeira se
decompõe), por ser extremamente abundante, principalmente na Noruega,
mas também nas regiões colonizadas posteriormente, como Islândia,
Groenlândia e ilhas Britânicas.
Porém, nem só em fazendas viviam
os Vikings. Existiam também grandes cidades em seus domínios, e eles
fundaram outras também. As principais cidades da Noruega e Dinamarca na
Era Viking eram: Oslo, Kaupang, Gokstad, Bergen e Trondheim, na Noruega;
e Jelling e Hedeby, na Dinamarca. Estas cidade eram na maioria das
vezes localizadas ao redor de fiordes e protegidas com altas e largas
muralhas de terra batida. Nelas as casas eram bem menores, morando
apenas o núcleo familiar em si (homem, mulher e filhos).
As
obrigações eram semelhantes, mas as cidades não dependiam da agricultura
local para sobreviverem, elas podiam fazer isso através do comércio que
era a sua principal fonte de lucros.
Talvez a mais
importante cidade Viking tenha sido Hedeby, na Dinamarca. O comércio na
região era tão intenso que chegava a atrair até mesmo os Árabes da
Espanha. Os Vikings vendiam e compravam de tudo, mas um de seus
principais produtos de venda eram os escravos, no mais das vezes
prisioneiros feitos em reides às ilhas Britânicas. Sabe-se que para um
Viking, o dia do nascimento era muito importante, sendo nele definido o
nome que o bebê teria. O nome da pessoa, segundo a crença, determinava
seu caráter. Representação da cidade e do mercado de Hedeby, com suas
muralhas em terra e mar
Sabe-se que para um Viking, o dia do
nascimento era muito importante, sendo nele definido o nome que o bebê
teria. O nome da pessoa, segundo a crença, determinava seu caráter.
Os
Vikings também se preocupavam com a educação de seus filhos.
Geralmente, nas fazendas um homem velho reunia as crianças para contar a
História dos antepassados, explicar o funcionamento das Althings, dizer
que devem louvar o Rei e os Deuses, além de iniciá-las na Religião e,
algumas vezes, no conhecimento das Runas. Nas cidades não se sabe como
era realizada a educação das crianças.
Alfabeto Rúnico Original
Os verdadeiros elmos de guerreiros Vikings eram cônicos e sem chifres.
Sempre que imaginamos os Vikings, lembramos de homens bárbaros, muito
maus, trajando roupas peludas e elmos com chifres. Pois bem, esta visão
está no mínimo equivocada. Comecemos por desmistificar os elmos com
chifres ou asas. Muitos dizem que os Vikings os usavam pois tinham medo
de que o céu lhes viesse a cair nas cabeças. Na realidade, os Vikings
nunca utilizaram tais elmos, eles não passam de uma invenção artística
das óperas do século XIX, que visavam resgatar a imagem dos Vikings, sem
saber ao certo com eles eram. Os verdadeiros capacetes Vikings eram
cônicos e sem chifres, como o da foto. Quanto às roupas peludas, é certo
que no seu cotidiano eles realmente utilizavam roupas bem grossas,
devido ao frio das regiões que habitavam, mas apenas uma minoria dos
guerreiros as utilizavam, nas batalhas, pois preferiam (por razões
óbvias) as malhas de aço e ferro, uma vez que estas protegiam-nos dos
golpes.
Já o fato de serem maus e bárbaros é de fácil explicação. Os
primeiros ataques Vikings foram reides a mosteiros na costas e ilhas
Britânicas (no final do século VIII), mesmo depois, os Vikings
continuaram gostando muito de realizar ataques a mosteiros devido ao
fato de estes não serem tão bem protegidos quanto as cidades e guardarem
tesouros da Igreja Católica, além de vinho, bebida muito apreciada por
habitantes de regiões frias. Esse costume de atacar mosteiros fez com
que a Igreja rapidamente condenasse os Vikings e os visse como
verdadeiros enviados do inferno. Uma oração comum em finais do século IX
dizia o seguinte: “Da fúria dos Nórdicos livrai-nos, ó Senhor”.
Talvez a grande vantagem que os Vikings tenham tido sobre os demais
povos da Europa que lhes foram contemporâneos tenha sido sua alta
tecnologia de construção naval. Os Noruegueses e Dinamarqueses
desenvolveram no início da Idade Média um tipo de embarcação que só veio
a ser superada cerca de seiscentos anos mais tarde pelos Portugueses,
com a invenção das Caravelas e Naus (que na época funcionavam, não eram
como as de hoje). As embarcações Vikings eram de dois tipos básicos: as
de transporte e comércio; e as de guerra. Ambas tinham em comum o fato
de serem longas, estreitas e com quilhas (parte de baixo do navio) que
penetravam muito pouco na água.
Sendo assim, elas podiam navegar com
estabilidade tanto no mar profundo, quanto em rios rasos, podendo chegar
até a praia para que os guerreiros descessem e atacassem o lugar. A
supremacia das embarcações Vikings não estava somente na estabilidade,
mas também na utilização combinada de remos e velas. Os navios
geralmente navegavam com o vento através de velas (foram os primeiros
navios da História a usarem o vento como principal fonte de movimento),
só utilizavam os remos quando não havia vento.
Existiam, como já
mencionei, dois tipos de embarcações, a diferença entre elas era que as
mercantes e de transporte, as chamadas knorrs, eram maiores e mais
largas que as destinadas a guerra, as chamadas drakkars. Uma knorr
precisava ser maior do que uma drakkar pelo fato de que transportava
produtos, algumas vezes elas levavam até gado, era também nelas que as
pessoas comuns se mudavam para colônias recém estabelecidas.
Tantos
as drakkars quanto as knorrs eram enfeitadas com cabeças de dragões ou
serpentes em suas proas e com velas listradas (ou xadrezes) em misturas
de verde, vermelho ou azul com branco. Nas drakkars, cada homem ia
sentado em cima de um pacote que continha suas armas e armadura, este
pacote servia-lhe de banco, cada um também tinha um remo, e o último
homem era o encarregado do leme, que dava direção ao navio. Quando o
navio estava para chegar ao local do ataque, os homens desfaziam seus
pacotes e se preparavam para o ataque. Cada drakkar transportava em
média quarenta guerreiros, uma knorr transportava muito mais pessoas
ainda. Foi graças as drakkars e as knorrs que os Vikings conseguiram
colonizaram grande parte das ilhas Britânicas, assaltar a Europa e
descobrir a Islândia, a Groenlândia e a América.
3.4 – Religião e Mitos:
Os
Vikings não eram criaturas enviadas pelo demônio, ou mesmo homens sem
religião, como pensavam alguns homens da época. Apesar de seu costume
(que desagradava em muito a Igreja Católica e que lhes proporcionou tais
famas) de saquear mosteiros, os Vikings eram extremamente religiosos e
desenvolveram uma religião muito peculiar por ser, além de semelhante às
doutrinas Protestantes que lhe foram posteriores por cerca de
quinhentos anos, um dos maiores, senão o maior incentivo que os Nórdicos
tiveram para realizar sua expansão.
Além de uma religião muito
evoluída (no sentido de ser adaptada às necessidades de sua população),
os Vikings também possuíam vários mitos, como Anões, Dragões, Duendes,
Serpentes Marinhas, Gnomos, Elfos e Sereias. Todos estes mitos, por
sinal, hoje em dia povoam os chamados RPGs, que foram a febre dos
adolescentes da década de 90. O interessante em se estudar tais mitos é
justamente entender como, quando e porque surgiram suas idealizações.
Sendo
assim abordarei inicialmente as idealizações da mitologia Viking,
passando depois às suas crenças religiosas propriamente ditas.
Os
Vikings acreditavam que os homens podiam ser perturbados por Elfos e
Duendes, que segundo eles seriam criaturas pequenas e com capacidades de
se tornarem invisíveis (ou de se esconderem das pessoas de tal forma
que não podiam ser encontradas). Os Duendes, segundo as crenças Vikings
eram sabotadores natos, gostavam de roubar coisas e escondê-las dos
homens. Podiam até provocar naufrágios caso sabotassem um navio. Já os
Elfos eram muito parecidos com os humanos, só que bem menores, com
orelhas puxadas e poderes mágicos. Alguns rituais de bruxaria invocavam
estas entidades para pedir ajuda ou prejudicar outras pessoas (os Elfos
são um pouco semelhantes ao que representa o Saci Pererê no folclore
Brasileiro do interior).
Os Gnomos eram parecidos com os Duendes,
porém, com características boas. Eles protegiam os animais e as
florestas, além de guardarem o pote de ouro de Asgard (o céu dos
Vikings).
Mitos como os das Serpentes Marinhas e Sereias são de
fácil compreensão, à medida que os Vikings (principalmente os
Noruegueses) adentravam no oceano, o medo dos naufrágios se tornava mais
presente, sendo assim a crença em criaturas que os proporcionavam era
lógica. As Sereias eram temidas pelos navegadores, pois segundo a lenda,
elas ficariam sentadas sobre os rochedos próximos do litoral e com seu
canto hipnótico atrairiam os homens para lá, fazendo o navio bater nas
rochas e afundar, matando a todos, além disso, elas também podiam
aparecer no meio do mar, onde com seu canto podiam fazer os homens se
atirarem na água para pegá-las, morrendo afogados. No entanto, as
Sereias não são uma criação da Mitologia Viking, uma vez que já existem
lendas de Sereias em contos antigos como a Odisséia, do Grego Homero. Já
as Serpentes Marinhas (comuns em representações artísticas de mapas da
Idade Média) eram criaturas que habitavam as água profundas, algumas
vezes elas podiam querer se alimentar dos homens, sendo assim subiam à
superfície e tentavam virar as embarcações para depois devorar os
tripulantes. Justamente para se protegerem das Serpentes Marinhas e de
outros perigos imaginários, os Vikings utilizavam na proa de seus barcos
cabeças de Dragão, pois assim, estariam protegidos, uma vez que
acreditavam que o Dragão era o animal mais poderoso e, portanto, mais
temido do mundo.
A crença na existência de Dragões, no
entanto, não é de origem Viking. Ela remonta a um passado muito mais
remoto, e teria surgido na China, cerca de cinco mil anos antes de
Cristo, quando os Chineses encontravam esqueletos de dinossauros e
tentavam explicar de onde teriam surgido ossadas tão enormes. De um
forma desconhecida, esta crença (a dos Dragões) se difundiu pelos
séculos e pelas regiões até atingir a Escandinávia. No entanto, os
Vikings foram os responsáveis pela instituição do mito dos Dragões na
Europa. Quando vemos filmes sobre histórias de Dragões, ou jogamos RPGs
com Dragões, aqueles animais não são os do imaginário Chinês, mas sim os
do imaginário Viking. Dragão Vermelho de jogos de RPG. Sua figura
afastava os perigos.
Por fim, não podemos nos esquecer dos Anões. Se
pensarmos novamente nos jogos de RPG, lembraremos que os Anões nesses
jogos são sempre representados com a imagem que temos dos Vikings
(imagem que, como já expliquei, é falsa), ou seja, utilizam elmos com
chifres, botas e roupas peludas e sua arma preferida é um machado (o
machado era realmente a principal arma Viking, mas o machado de mão, não
o machado de batalha que é muito maior e que necessita da utilização
das duas mãos em sua operação, não usavam este machado, pois gostavam de
usar escudos), a imagem dos Anões de RPGs também pode ser a de outros
povos Medievais, como Árabes e até Cristãos.Pois bem, não é que na Idade
Média não existissem as pessoas com baixa estatura, que hoje são
conhecidas como anões, mas os Anões mitológicos são criação da Mitologia
Viking. Os Nórdicos acreditavam que esses seres eram imortais e viviam
embaixo da terra, eles eram mineiros, e apesar de desprezados pelos
Deuses, sempre que podiam, ajudavam os homens. Anões de RPGs. Figuras
inspiradas em lendas Vikings e formas inspiradas em povos medievais.
Mas
falemos agora sobre a Religião Viking propriamente dita. Ela era uma
seita complexa, com um panteão (conjunto de deuses) muito semelhante ao
da Mitologia Grega (talvez inspirado nela), o comportamento dos Deuses
em suas interações com os homens também eram muito semelhante ao da
Mitologia Grega, porém, a motivação social desta religião,
diferentemente da Grega, não era apenas explicar fenômenos e reações
inexplicáveis, mas também, e principalmente, estimular o povo que a
adota a melhorar de vida; tal qual as doutrinas Protestantes do século
XVI.
A Religião Viking se chamava Ásatrú, ou Vanatrú. Não havia nela
uma explicação própria para a criação do mundo, como na maioria das
religiões, bem como, diferentemente da maioria das religiões, o culto
aos Deuses não era realizado em templos, pois os Vikings não os
construíam. Os cultos eram realizados em locais onde as pessoas se
sentiam em total sintonia com a natureza, ou seja, normalmente próximo a
cachoeiras, lagos, florestas ou até na beira do mar; desde que o lugar
fosse afastado da civilização.
O Ásatrú é baseado na renovação (digo
é, pois ainda hoje existem seguidores dessa religião), ou seja, num
passado remoto teriam existido outros deuses que não os atuais, que numa
guerra foram vencidos e destruídos pelos atuais que ocuparam seu lugar.
Porém, os próprios deuses atuais também virão a ser destruídos numa
guerra e, portanto, substituídos por outros deuses num futuro distante.
Essa guerra entre os deuses é conhecida como Ragnarök.
No Ragnarök,
todos os deuses velhos morrerão e junto com eles, também a humanidade,
serão então os deuses velhos substituídos por novos e a humanidade
recomeçará do zero. Esse mito é uma clara alusão ao Apocalipse da
Bíblia, onde todos serão julgados, os bons serão salvos e os maus
punidos, no fim do mundo.
Os Vikings acreditavam que o mundo, bem
como o céu (lugar onde os deuses moravam), chamado de Asgard existia não
devido aos deuses, mas sim a uma árvore mágica chamada Yggdrasill. Esta
árvore teria as raízes tão profundas que apenas as criaturas hostis
(rejeitadas pelos deuses (como os Anões)) viviam à sua volta; ao redor
do caule de Yggdrasill estava o mundo dos homens, ou seja, o nosso
mundo, chamado de Midgard; e acima das folhas mais altas localizava-se
Asgard.
Para os Nórdicos também existia uma alma, que eles chamavam
Filgia. A Filgia só se separava do corpo em duas ocasiões: na morte e ao
dormir. Em ambas as ocasiões, a alma ia “dar um passeio” no Reino dos
mortos (que depois explicarei com era) e se encontrava com as pessoas
falecidas, sendo assim, os Vikings acreditavam que ao dormirem podiam
ter presságios de coisas que estavam por acontecer, sendo os sonhos,
por isso, considerados muito importantes.
O ponto mais importante da
Ásatrú, no entanto era a doutrina que julgo semelhante à doutrina
Protestante. Entendam: a Escandinávia era extremamente fria o ano todo,
por isso, a agricultura é muito difícil.
O fenômeno denominado
“Sol da Meia-noite”, que ocorre anualmente no norte da
Escandinávia.Este fenômeno não ocorre na Dinamarca, por esta se situar
mais ao sul, em relação a Noruega. Pois bem, o mundo do mortos estava
dividido em duas partes: uma chamada Walhalla, análoga à nossa noção de
Paraíso e outra chamada Hel, análoga à nossa noção de Inferno. Walhalla
tinha o clima ameno e o solo extremamente fértil, além de o sol brilhar o
tempo todo, coisa que não acontece no Círculo Polar Ártico, pois
durante boa parte do ano, as pessoas são submetidas a chamada noite
eterna, e em outras épocas, o sol nasce à meia-noite. Já Hel (nome que
inspirou nos Ingleses a palavra Hell, que em inglês quer dizer Inferno)
era gélido, com terras estéreis e noite perpétua, ou seja, um retrato da
Escandinávia. Isso (a semelhança de sua terra natal com Hel)
incentivava as pessoas a quererem deixá-la, rumo a um lugar mais quente,
de terras mais férteis e onde o dia e a noite se eqüivalessem (ver item
4 – O Ser Viking).
Somente essa comparação entre a Escandinávia e o
Hel já seria suficiente para incentivar as pessoas a colonizar outras
regiões, no entanto, havia um outro motivo mais forte que empurrava as
pessoas a isso. Quando realizavam reides a outras regiões, mesmo que não
as colonizassem, os Vikings roubavam muitas riquezas e, por tanto,
melhoravam de vida. Pois bem, Walhalla estava reservada para os
corajosos, ou seja, os que morreram lutando; para os saudáveis, os
escolhidos dos deuses; e para os ricos e bem sucedidos. Em
contraposição, Hel estava reservado aos doentes, aos medrosos e aos
pobres. Por isso, todos lutavam para melhorar de vida, pois assim, ainda
que mortos, iriam para o tão sonhado lugar melhor. Representação de um
guerreiro Viking
É inevitável que se façam comparações entre as
religiões Ásatrú, Luterana e Calvinista. Uma vez que a doutrina
Calvinista prevê a salvação pela predestinação, ou seja, os que forem
escolhidos pelos deus (ou por Deus) para se tornarem ricos, receberam um
sinal divino de que serão salvos, e doutrina Luterana diz que a
salvação é dada pela fé, tanto que ela pode ser claramente ilustrada na
seguinte frase: “Filha, peca forte. Mas crê mais ainda, e serás salva”. A
semelhança é óbvia, uma vez que não importava aos Vikings as boas obras
que tivessem deixado na terra, ou mesmo a correção de suas vidas, o que
importava era que acreditassem em seus deuses (pois se não
acreditassem, não teriam estímulo para lutar), pois se fossem escolhidos
por eles para serem bem sucedidos (ganhassem as lutas e, por isso,
enriquecessem) seriam salvos, caso contrário, a danação os esperava.
Cabe
,depois de tal comparação, questionar se Lutero e Calvino não conheciam
o Ásatrú, pois se o conheciam, podemos então dizer que não passavam de
plagiadores de uma doutrina muito mais antiga. Sendo assim, a única
coisa que teriam feito na realidade foi adaptá-la à fé Cristã.
Sei
que já me alonguei muito no que diz respeito às crenças Vikings, mas,
como veremos mais adiante, elas serão importantíssimas para a
compreensão do que era ser Viking e além disso, constituem talvez um dos
mais importantes legados Vikings aos nossos dias.
Abaixo segue a lista das principais divindades do Ásatrú, especificadas com seus poderes e algumas curiosidades.
Odin: Era o principal Deus Viking. Ele governava Asgard e também
Midgard. Vivia montado em seu cavalo negro de oito patas chamado
Sleiphir, e seguido por seus dois lobos de estimação: Geri e Freki. Era o
Deus da Magia, da Morte e da Guerra, empunhava a lança Gungnir, que
nunca erra o alvo. Ele também era o Protetor dos Estadistas
(governantes) e dos Poetas. Segundo o imaginário Viking, o principal
presente de Odin aos homens foi a sabedoria, representada pelo Alfabeto
Rúnico, entretanto, Odin teve que fazer um grande sacrifício para poder
criar este alfabeto. Sacrifício este que lhe custou o olho direito. Odin
era celebrado na quartas-feiras, e por isso, este dia ficou conhecido
como Odinsday, que depois, tornou-se em inglês a Wednesday
(quarta-feira). O possível análogo de Odin na mitologia Grega é Zeus,
por se tratar do Deus dos deuses.