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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Alexandre, o Grande

Alexandre III da Macedônia, dito o Grande ou Magno (em grego, Αλέξανδρος o Τρίτος o Μακεδών – Aléxandros ho Trítos ho Makedón, Αλέξανδρος ο Μέγας – Aléxandros ho Mégas ou Μέγας Αλέξανδρος – Mégas Aléxandros) (20 de julho de 356 a.C. em Pella – 10 de junho de 323 a.C., em Babilônia) foi um príncipe e soberano da Macedônia, um filho dos 3 de Filipe II e Olímpia do Épiro – uma fiel mística e ardente do deus grego Dionísio.



Alexandre Magno e seu cavalo Bucéfalo, na Batalha de Isso (333 a.C.). Mosaico encontrado em Pompeia, na Itália, hoje no Museu Arqueológico Nacional, em Nápoles.




Alexandre foi o mais célebre conquistador do mundo antigo. Em sua juventude, teve como preceptor o filósofo Aristóteles. Tornou-se o rei aos 20 anos, na sequência do assassinato do seu pai.


Vida


A sua carreira é sobejamente conhecida: conquistou um império que ia dos Balcãs à Índia, incluindo também o Egito e a Báctria (aproximadamente o atual Afeganistão). Este império era o maior e mais rico que já tinha existido. Existem várias razões para esses grandes êxitos militares, um deles é que Alexandre era um general de extraordinária habilidade e sagacidade, talvez o melhor de todos os tempos, pois ele nunca perdeu nenhuma batalha e a expansão territorial que ele proporcionou é uma das maiores da história, a maior expansão territorial em um período bem curto de tempo. Além disso era um homem de muita coragem pessoal e de reconhecida sorte.


Ele herdou um reino que fora organizado com punho de ferro pelo pai, que tivera de lutar contra uma nobreza turbulenta, as ligas lideradas por Atenas, e Tebas (a batalha de Queroneia representa o fim da democracia ateniense e por arrastamento das outras cidades gregas e de uma certa concepção de liberdade), revolucionando a arte da guerra.


A sua personalidade é considerada de formas diferentes segundo a percepção de quem o examina: por um lado, homem de visão, extremamente inteligente, tentando criar uma síntese entre o oriente e ocidente (encorajou o casamento entre oficiais seus e mulheres persas, além de utilizar persas ao seu serviço), respeitador dos derrotados (acolheu bem a família de Dario III e permitiu às cidades dominadas a manutenção de governantes, religião, língua e costumes) e admirador das ciências e das artes (fundou, entre algumas dezenas de cidades homónimas, Alexandria, que viria a se tornar o maior centro cultural, científico e econômico da Antigüidade por mais de 300 anos, até ser substituída por Roma); por outro lado, profundamente instável e sanguinário (as destruições das cidades de Tebas e Persepólis, o assassinato de Parménio, o seu melhor general, a sua ligação com um eunuco), limitando-se a usar o pessoal de valor que tinha à sua volta em proveito próprio.


De qualquer modo, fez o que pôde para expandir o helenismo: criou cidades com o seu nome com os seus veteranos feridos por todo o território e deu nome para cidade homenageando seu inseparável e famoso cavalo Bucéfalo. Abafou uma rebelião de cidades gregas sob o domínio macedónio e preparou-se para conquistar a Pérsia.


Em 334 a.C., empreendeu sua primeira campanha contra os persas na Batalha de Granico que deu-lhe o controle da Ásia Menor (atual Turquia). No ano seguinte, derrotou o rei Dario III da Pérsia na Batalha de Issus. Mais um ano depois, conquistou o Egipto e Tiro, em 331 a.C.. Completou a conquista da Pérsia na Batalha de Gaugamela, onde derrotou definitivamente Dario III, o que lhe conferiu o estatuto de Imperador Persa.





O Império de Alexandre




A tendência de fusão da cultura dos macedônios com a grega provocou nestes temor quanto a um excessivo afastamento dos ideais helênicos por parte de seu monarca. Todavia, nada impediu Alexandre de continuar seu projeto imperialista em direção ao oriente. Durante cerca de dois anos Alexandre manteve-se ocupado em várias campanhas de curta duração para a consolidação do seu império. Mas, em 327 a.C., conduzindo as suas tropas por cima das montanhas Indocuche para o vale do rio Indo, para conquistar a Índia, país mítico para os gregos, foi forçado a regressar à Babilónia devido ao cansaço das suas tropas, e instalaria aí a capital do seu império. Deixou atrás de si novas colónias, como Nicéia e Bucéfala, esta erigida em memória de seu cavalo, às margens do rio Hidaspes.


Ele tinha a intenção de fazer ainda mais conquistas. Sabe-se que planejava invadir a Arábia e, provavelmente, as regiões ao norte do Império Persa. Poderia também ter planejado outra invasão da Índia ou a conquista de Roma, Cartago e do Mediterrâneo ocidental.


Infelizmente nenhuma das fontes contemporâneas sobreviveu (Calístenes e Ptolomeu), nem sequer das gerações posteriores: apenas possuímos textos do século I que usaram fontes que copiaram os textos originais, de modo que muitos dos pormenores da sua vida são bastante discutíveis.
Alexandre morreu depois de doze anos de constante campanha militar, sem completar os trinta e três anos, possivelmente como resultado de malária, envenenamento, febre tifóide, encefalite virótica ou em consequência de alcoolismo.


O exército de Alexandre Magno



Um busto de Alexandre conhecido como Azara Herm. Cópia romana em mármore de um original de Lisipo, de 330 a.C. (museu do Louvre). Segundo Plutarco, as esculturas de Lisipo representavam fielmente o famoso conquistador macedônio


O exército macedónio sob Filipe II e sob Alexandre Magno era composto por diversos corpos complementando-se entre si: cavalaria pesada; cavalaria ligeira; infantaria pesada e infantaria ligeira.


A cavalaria pesada era constituída pelos hetairoi ou companheiros, formados em esquadrões ilai de 256 ginetes com capacete beócio, couraça de bronze ou linotorax, equipados com xyston ou lança de 3,80 m e uma espada. Os militares formavam a unidade de elite de cavalaria aristocrática macedónia, sendo o principal elemento ofensivo. Em situação de combate, formavam à direita dos hypspistas; os nove esquadrões com o esquadrão real de 300 ginetes tomando o lugar de honra, sob o comando de Clito Melas, cujo dever era o de proteger o rei durante as batalhas; à sua esquerda, colocavam-se os outros chefes em 8 esquadrões de 256 homens, subdivididos em 4 unidades de 64 ginetes sob comando de Filotas.


À frente de todos estes, posicionavam-se os arqueiros e protegendo o flanco direito, os prodromoi e restante cavalaria ligeira.


Alexandre e o Egito


A cultura do Antigo Egito impressionou Alexandre desde os primeiros dias de sua estadia naquele país. Os grandes vestígios que ele via por toda parte lhe cativaram até o ponto que ele quis "faraonizar-se" como aqueles reis quase míticos. A História da Arte nos tem deixado testemunhos destes feitos e apetências. Em Karnak existe um relevo onde se vê Alexandre fazendo as oferendas ao deus Amon. Veste a indumentária faraônica:
· Klaft faraónico (manto que cobre a cabeça e vai por trás das orelhas, clássico do antigo Egito), mais a "Coroa Dupla", vermelha e branca, que se sustenta em equilíbrio instável.
· Cauda litúrgica de chacal, que com o tempo se transformou em "cauda de vaca".
· Oferenda em quatro vasos como símbolo para indicar "quantidade", "repeticão", "abundância" e "multiplicação".
Nos hieróglifos do muro se distinguem, além dos títulos de Alexandre – faraó que se representam dentro de um serej e um cartucho egípcio.


Relações pessoais


Alexandre lutando contra um leão com seu amigo Craterus (detalhe). Mosaico do século III a.C., Museu de Pella




O grande amigo e companheiro de toda a vida de Alexandre foi Heféstion, filho de um nobre da Macedónia. Heféstion, para além de amigo pessoal de Alexandre, foi o vice-comandante do seu exército, até à sua morte. Alexandre casou com pelo menos duas mulheres, Roxana, filha de um nobre pouco importante, e a princesa persa Statira II, filha de Dario III da Pérsia. O filho que teve de Roxana, Alexandre IV da Macedónia, morreu antes de chegar à idade adulta.


Especulações


Por ter morrido ainda jovem e sem derrotas, muito se especula sobre o que teria acontecido se tivesse vivido mais tempo. Se houvesse liderado suas forças numa invasão das terras a oeste do Mediterrâneo, provavelmente teria alcançado sucesso, e, nesse caso, toda a história da Europa ocidental poderia ser completamente diferente.


O legado de Alexandre


Com a sua morte, os seus generais repartiram o seu império e a sua família acabou por ser exterminada. Os Epígonos iriam gastar gerações seguidas em conflitos. Apenas Seleuco esteve prestes a reunificar o império (faltando o Egipto) por um curto espaço de tempo. Os seus sucessores fizeram o que puderam para manter o helenismo vivo: gregos e macedónios foram encorajados a emigrar para as novas cidades. Alexandria no Egipto teve um destino brilhante devido aos cuidados dos ptolomaicos (o Egipto, apesar da sua monumentalidade, nunca possuíra grandes metrópoles): tornou-se um porto internacional, um centro financeiro e um foco de cultura graças à biblioteca; mas outras cidades como Antióquia, Selêucida do Tigre e Éfeso também brilharam. Reinos no oriente, como os greco-bactrianos (Afeganistão) e greco-indianos, expandiram o helenismo geograficamente mais do que Alexandre o fizera. Quando os partos (um povo indo-europeu aparentado com os citas) ocuparam a Pérsia, esses reinos subsistiram até ao século I a.C., com as ligações cortadas ao ocidente.


Alexandre tem persistido na história e mitos tanto da cultura grega como das não-gregas. Depois de sua morte (e inclusive durante sua vida) suas conquistas inspiraram uma tradição literária na que aparece como um herói legendário, na tradição de Aquiles. Também é mencionado no livro zoroástrico de Arda Viraf como "Alexandre, o Maldito", em persa Guzastag, pela conquista do Império Persa e a destruição de sua capital, Persépolis. É conhecido também como Eskandar-e Maqduni ("Alexandre da Macedônia") em persa, Dhul-Qarnayn , "o (homem) dos dois chifres", nas tradições do Oriente Médio, الإسكندر الأكبر, Al-Iskandar al-Akbar em árabe, سکندر اعظم, Sikandar-e-azam em Urdu, Skandar em pashto, אלכסנדר מוקדון, Alexander Mokdon em hebraico, e Tre-Qarnayia em aramaico (novamente, "o dos dois chifres"), aparentemente a causa de uma imagem empregada nas moedas cunhadas durante seu reinado nas quais é mostrado com os chifres de carneiro do deus egípcio Amon. Sikandar, seu nome em Urdu e Hindi, também se emprega como sinônimo de "esperto" ou "extremamente hábil".


Roma recuperou o legado helenístico, e a miragem do império de Alexandre: Crasso e Marco António tentaram conquistar a Pérsia com péssimos resultados. Trajano morreu a meio de uma expedição, Septímio Severo teve o bom senso de desistir a meio e só Heráclito, no período bizantino, teve uma campanha vitoriosa: debalde, pois os árabes acabaram com a Pérsia Sassânida, enfraquecida pelas longas guerras com Bizâncio.


O ocidente medieval viu nele o perfeito cavaleiro, incluindo no grupo dos nove bravos e estabeleceu lendas e o "Romance de Alexandre". Luís XIV apreciava vestir-se como Alexandre (à maneira do século XVII obviamente) e esse epíteto seria sempre apreciado por monarcas absolutos.


Morte de Alexandre


Alexandre, o Grande morreu no dia 10 de junho de 323 a.C, na Babilônia. Dizem que suas ultimas palavras foram: "Prevejo uma grande disputa nos meus funerais". Dizem que ele morreu por beber de mais. outros acham que foi envenenado ou que pegou alguma doença como malária. Os principais suspeitos são:
· Antipáro - por ter sido intimado por Alexandre e sua mãe, a ponto de começar a temer por sua vida e sua posição.
· Cassandro - porque uma vez Alexandre bateu na cabeça dele (Cassandro) na parede por ter rido de alguém que se inclinara diante de Alexandre.
· Cratero e Perdicas - ambiciosos oficiais macedônios que esperavam herdar o trono de Alexandre.
· Aristóteles - Furioso por Alexandre ter se proclamado deus e contrário a seus costumes persas. Dizem alguns que era aliado de Antíparo e seu filho, também dizem que usou seus conhecimentos para fazer o veneno.

Macedônia

Macedônia é uma região do sudeste da Europa, que ocupa a parte central do que agora se conhece como a Península Balcânica. Foi, em tempos, uma província romana que se estendia desde o Mar Adriático, no Oeste, até o Mar Egeu, no Leste, e ficava ao Norte da Acaia. Embora tenha numerosas planícies férteis, é principalmente uma região montanhosa. Antigamente, a Macedónia servia de elo vital entre o Leste e o Oeste. A Via Egnatia, construída pelos romanos, ia desde Dirráquio e Apolónia, na costa Oeste da Península até Neápolis, na costa Leste, e mais além.

História

Macedônia continuou a ser governada pela dinastia Antigónidas, até ser anexada ao Império Romano. Em meados do século II a.C., a Macedónia tornou-se província romana. Por algum tempo durante o século I d.C., ficou unida com a Acaia, ao Sul, e a Mésia, ao Norte, para formar uma província imperial sob o legado da Mésia. Todavia, em 44 d.C., a Macedônia tornou-se novamente uma província senatorial sob a jurisdição de um governador romano.

O cristianismo na província

A Macedônia foi a primeira região da Europa a ser visitada pelo apóstolo Paulo na sua segunda viagem missionária. Enquanto Paulo estava em Trôade, no NO da Ásia Menor, teria tido uma visão que o mandava à Macedónia (Atos 16:8, 9). Paulo, junto com Lucas, Timóteo e Silas, partiu para a Macedónia. Depois de chegar a Neápolis, o porto de Filipos, a NE da Macedónia, Paulo dirigiu-se a cidade de Filipos (Atos 16:11-40). Parece que Lucas permaneceu em Filipos quando Paulo, Silas e Timóteo percorreram as cidades macedônias de Anfípolis (uns 50 km ao OSO de Filipos) e Apolónia (uns 50 km ao SO de Anfípolis). A seguir, Paulo visitou respectivamente as cidades macedónias de Tessalônica (uns 60 km ao ONO de Apolônia) e Beréia (uns 80 km ao OSO de Tessalônica). (Atos 17:1-12) O bom relatório que Timóteo trouxe, ao retornar, induziu Paulo a escrever a sua primeira carta aos tessalonicenses (I Tessalonicenses 3:6; Atos 18:5). A sua segunda carta aos tessalonicenses seguiu-se pouco depois.

No decurso da sua terceira viagem missionária, Paulo fez planos para regressar à Macedônia (I Coríntios 16:5-8; II Coríntios 1:15, 16). Embora a comunidade cristã macedónia fosse pobre, era muito generosa. Os filipenses destacavam-se em especial no seu apoio dado ao ministério apostólico de Paulo (II Coríntios 11:8, 9; Filipenses 4:15-17). Mesmo durante o primeiro encarceramento de Paulo em Roma, os cristãos de Filipos enviaram Eprafrodito para ministrar pessoalmente o apóstolo de Paulo. Os tessalonicenses mostraram grande fé e perseverança, e, portanto, tornaram-se um exemplo para "todos os crentes na Macedónia e na Acaia" (I Tessalonicenses 1:1-8; 4:9, 10). Parece que depois de ser solto da prisão em Roma, Paulo visitou novamente a Macedónia e teria escrito dali a epístola conhecida como a I Timóteo. A epístola a Tito talvez tenha sido escrita na Macedónia.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Biblioteca de Alexandria


O Império Macedónico estendeu-se, como vimos, por todo o mundo conhecido, da Sicília à África do Norte, da Península Balcânica à Ásia Menor, do Irão à Índia e ao Afeganistão. Vimos também que Filipe II, e posteriormente Alexandre, desenvolveram uma política de aproximação às culturas dos povos conquistados. É neste contexto que se deve entender o significado ecuménico da Biblioteca. Com o intuito de compreender melhor os povos conquistados, era necessário reunir e traduzir os seus livros, em especial os livros religiosos uma vez que a religião era, de acordo com Canfora (1989: 28), "a porta de suas almas".
      Interessa também realçar que o Egipto era um país onde a tradição da cultura e das colecções sempre tinha existido. Na verdade, desde o tempo dos antigos faraós que existiam bibliotecas. Por outro lado, alguns soberanos Assírios e Babilónicos possuíam também bibliotecas. Em Ninive, foi mesmo encontrada em 1849 por Layard, a biblioteca cuneiforme do rei assírio Assurbanipal, cujos livros eram placas de argila. No entanto, a primeira biblioteca particular realmente importante, antes da biblioteca de Alexandria, foi a biblioteca de Aristóteles elaborada, em parte, graças aos generosos subsídios de Alexandre. 
 
A fundação da Biblioteca
 
      Por conselho de Demétrio de Falero, Ptolomeu Soter, vai fundar uma nova biblioteca. O edifício será construído no mais belo bairro da nova cidade, nas proximidades do porto principal, onde também se encontrava o palácio real, prova bem clara da importância que Ptolomeu, desde o princípio, lhe atribuiu.
      Para além dos inúmeros livros que Demétrío e Ptolomeu I compraram para a biblioteca, esta foi crescendo também graças ao contributo que os sábios e os literatos da época iam dando (refira-se por exemplo, o caso do filólogo Dídimo (313 - 398 d.C.), que terá composto cerca de três mil e quinhentos volumes de comentários).
A colecção de base acumulada por Ptolomeu I aumentou com enorme rapidez nos dois reinados seguintes. Ptolomeu III, o Evérgeta (reinado: 246 - 221 a.C.), usou de todos os métodos para obter livros. Assim, todos os navios mercantes fundeados no movimentado porto de Alexandria, eram revistados e os livros encontrados retidos e copiados. Conta-se também que Ptolomeu III pedira emprestado a Atenas os manuscritos originais ou as cópias oficiais das grandes tragédias de Ésquilo (525 - 456 a.C.), Sófocles (496 - 406 a.C.) e Eurípedes (480 - 406 a.C.). Acontece porém que, para os Atenienses, esses textos eram um património cultural de valor incalculável, razão pela qual se mostraram reticentes em deixar os manuscritos sair das suas mãos.  Só depois de Ptolomeu ter assegurado a devolução através de um enorme depósito em dinheiro (quinze talentos) aceitaram ceder as peças. Mas Ptolomeu, que atribuía maior valor a esses manuscritos do que ao próprio ouro, preferiu perder a caução e conservar os originais na sua biblioteca. Os Atenienses tiveram que contentar-se com as cópias que Ptolomeu lhes enviou.
A Biblioteca continha tudo o que a literatura grega produzira de interessante. É certo também que existiam obras estrangeiras traduzidas ou não. Dentro das obras traduzidas pelo corpo de tradutores do próprio museu, distingue-se a tradução em língua grega dos chamados Setenta, livros sagrados dos Judeus a que chamamos Antigo Testamento. Uma lenda diz que Ptolomeu II Filadelfo (rei do Egipto entre 283 e 246 a. C.) reuniu setenta e dois sábios judeus e lhes pediu que traduzissem para o grego as suas Escrituras. No entanto, a tradução foi na realidade bem mais demorada. O Pentateuco só foi acabado de traduzir no séc. III, os livros dos Profetas e os Salmos no século II, e o Eclesiastes cerca de cem anos após a era cristã.
A dedicação e devoção revelada pelos soberanos do Egipto e pelos responsáveis pelo Museu permitiu reunir a maior colecção de livros da antiguidade.  Pensa-se que a Biblioteca chegou a reunir cerca de 400 mil volumes. Tendo-se tornado insuficiente o espaço, o Serapeion (templo de Serápis) recebeu um outro depósito, de cerca de 300 mil volumes, totalizando assim 700 mil volumes.

Estátua do deus Serápis séc. IV a. C.. Adorado tanto pelos Gregos como pelos Egípcios, Serápis simbolizava a influência do saber grego no Egipto.

Dada a sua riqueza, a Biblioteca foi alvo de atenção dos falsários. Assim, uma das tarefas dos funcionários do Museu consistia em distinguir as obras apócrifas das autênticas.
Por exemplo, os poemas homéricos foram analisados por um filólogo do Museu, Zenódoto de Éfeso (final do séc. III a.C.) que assinalou as passagens mais suspeitas, o mesmo ocorrendo com os poemas trágicos e a literatura grega. Assim, nascia no Museu a crítica dos textos.

Museu de Alexandria

A fundação do Museu deve-se a Ptolomeu I, a quem os Rodiotas cognominaram Sóter (Salvador) em virtude da ajuda que lhes prestou. Homem de confiança de Alexandre Magno, general e historiador, foi ele quem, depois da morte de Alexandre, estabeleceu para si e para seus sucessores um novo reino no Egipto.
Decidido a transformar Alexandria na capital intelectual do helenismo, Ptolomeu vai procurar retirar a hegemonia cultural a Atenas em favor da sua capital, convidando poetas, sábios e filósofos. Assim, consegue atrair à sua cidade alguns poetas, médicos ilustres, matemáticos e astrónomos. Apesar de serem os filósofos quem ele mais desejava conquistar (estes, ao lado dos diádocos, e das cortesãs, eram considerados as grandes vedetas da época) o seu êxito no campo da filosofia não foi tão grande. Desta forma, os representantes das principais escolas filosóficas da época, cinismo, estoicismo e o epicurismo, não atenderam ao convite de Ptolomeu. Apenas  um dos representantes da escola peripatética, Demétrio de Falero, discípulo de Teofrasto, aceitou o seu convite.
Demétrio de Falero tinha governado Atenas durante dez anos, em nome de Cassandro da Macedónia. Com a morte de Cassandro, muda-se para Alexandria onde é incumbido de desenvolver a cultura das letras, das ciências e das artes. Será Demétrio de Falero o responsável pela criação do Museu e da Biblioteca. Este intenso desenvolvimento cultural vai manter-se ao longo das gerações seguintes. De um modo geral, todos os elementos da dinastia dos Ptolomeus se distinguiram pela protecção concedida aos homens da cultura. 
 
Antecedentes do Museu
 
Na realidade, a ideia e o nome do Museu não eram novas. Elas remontam fundamentalmente à escola peripatética a que Demétrio de Falero pertencera. A ideia provém de Pitágoras que fundou uma espécie de confraria na qual o culto das Musas simbolizava o estudo e a investigação científica. Às casas pitagóricas chamavam-se museus. Por seu lado, Platão (427 - 347 a.C.) ao fundar a Academia em Atenas, numa sua propriedade pessoal, aí instalou parques para passeio, salas de estar para o diálogo, instalações para o director e também uma parte para os alunos.
O episódio fundamental é porém a fundação do Liceu de Aristóteles cuja orientação metodológica pressupõe a cooperação dos sábios na investigação científica do Mundo. Após a morte de Aristóteles, Teofrasto organiza no Liceu um Museiom, verdadeiro predecessor do Museu de Alexandria. Neste Museiom, podiam-se encontrar salas de aula, alojamentos para os professores e também a famosa biblioteca reunida por Aristóteles.
Digamos que o projecto de Aristóteles e de Teofrasto era já o de agrupar os sábios e os alunos em redor de uma biblioteca, com vista a uma colaboração útil para o progresso da ciência. Em Alexandria, Demétrio, ele mesmo um peripatético, retoma a ideia conferindo-lhe, contudo, um carácter mais amplo.

Busto de Teofrasto
 
Ainda que Pfeiffer (1968) chame a atenção para a origem estritamente medieval da palavra Universidade, é possível afirmar que o Museu de Alexandria foi, de alguma forma, a primeira Universidade da História da Humanidade pois, para além de ser uma escola, foi o primeiro verdadeiro instituto de investigação da história do Mundo.
Como diz Carl Sagan (1980: 28): "Este lugar foi em tempos o cérebro e a glória da mais importante cidade do planeta, o primeiro instituto de investigação da história do mundo".  
 
As Instalações do Museu

    Pouco se sabe acerca dos edifícios e da organização arquitectónica do Museu. Os arqueólogos nunca encontraram os suas ruínas e apenas o conhecemos através das descrições de escritores antigos.
     Pensa-se que Hecateu de Abdera, contemporâneo de Ptolomeu Soter, ao descrever a planta do túmulo de Ramsés II, pretendia revelar alguns aspectos da planta do Museu.  São suas estas palavras:
   "As três passagens conduziam a uma sala com colunas, construída em forma de odeão, tendo sessenta metros de comprimento. Essa sala estava repleta de estátuas de madeira, representando alguns litigantes com olhar voltado para os juizes. Os juizes estavam esculpidos ao longo de uma das paredes, em número de trinta, e sem mãos; no meio, estava o juiz supremo com a verdade pendendo do pescoço e de olhos fechados, e no chão a seu lado um monte de rolos. Explicaram-me o que essas figuras pretendiam significar com a sua postura: que os juizes não devem receber doações e que o juiz supremo só deve ter olhos para a verdade.
Prosseguindo, entrava-se num perípato circundado por todos os tipos de vãos, ornamentados com relevos representando a maior variedade de finos alimentos. Ao longo do perípato distribuíam-se baixos-relevos coloridos, num dos quais aparecia o rei oferecendo à divindade ouro e prata extraídos das minas durante o ano em todo o Egipto. Sob esse relevo estava indicado o rendimento total, expresso em minas de prata: 32 milhões.
Em seguida havia a biblioteca sagrada, por cima da qual estava escrito lugar de cura da alma. Seguiam-se as imagens de todas as divindades egípcias, a cada uma das quais o rei oferecia dádivas apropriadas, como se quisesse demonstrar a Osíris e aos deuses inferiores que vivera toda a vida piedoso e justo em relação aos homens e aos deuses.
Havia também uma sala construída sumptuosamente com uma parede que coincidia com a biblioteca. Nessa sala havia um conjunto de mesas com vinte triclínios, as estátuas de Zeus e de Hera e ainda a do rei. Parece que ali estivera sepulto o corpo do rei. Disseram que essa sala possuía, por toda a volta, uma notável série de vãos onde estavam admiravelmente pintados todos os animais sagrados do Egipto."
Cit. in Canfora (13-14)
 
     
Reconstituição de um dos átrios da Biblioteca de Alexandria, tal como é apresentado no Cosmos de Carl Sagan  Os dois quadros representam, à esquerda Alexandre, e à direita o deus Serápis.
 
De acordo com Canfora (1989: 16), Hecateu colocou no mesmo plano a antiga realeza egípcia e a nova realeza ptolomaica. Tal como o túmulo de Ramsés, o Museu seria constituído por um perípato, um refeitório colectivo e uma sala de refeições. Incluiria também uma sala circular, em torno da qual se situavam os aposentos dos sábios residentes no museu.
Também Estrabão, historiador e geógrafo grego (63 a.C. - 20 d.C.) ao falar de Alexandria, inclui uma descrição precisa do Museu:  
"Do palácio também faz parte o Museu. Este inclui o perípato, a êxedra e uma grande sala, onde os doutos que são membros do Museu fazem refeições em conjunto. Nessa comunidade, o dinheiro também entra num fundo comum; têm um sacerdote que é chefe do Museu, numa época indicado pelos soberanos, agora por Augusto. (...) Parte do palácio é também o chamado Soma (o corpo): é um recinto circular, onde se encontram as tumbas dos reis e a de Alexandre."
Cit. in Canfora (72-73)
 
O Funcionamento do Museu
 
      O Museu não era só uma escola, no sentido próprio do termo. Era também um instituto de investigação. Ao contrário da Academia de Platão que, pelo menos de início, suportou todas as despesas de funcionamento, no Museu de Alexandria a manutenção dos sábios, poetas e raros filósofos que viviam no estabelecimento, estava a cargo do rei. Era ele que os alimentava e, provavelmente, lhes concedia as remunerações anuais destinadas às suas despesas. Estes pensionistas do Museu deveriam ser à volta de uma centena. Não lhes era estabelecido qualquer trabalho obrigatório. Desta forma, livres e sem problemas materiais de qualquer espécie, podiam empreender os seus trabalhos, dedicar-se às suas investigações e dar algumas aulas.
De acordo com Pfeiffer (1968) os sábios não seriam obrigados a ensinar mas, provavelmente, todos o fariam. O clima entre professores e alunos seria de companheirismo. Como forma de manifestar o seu apreço pelo Museu, Ptolomeu visitava-o com frequência, participava nas refeições comunitárias assim como nos debates dos sábios, aceitando sempre de bom grado qualquer observação crítica.
Ser admitido no Museu representava uma grande distinção. Nem todos os homens da ciência, ou que se tomavam como tal, receberam semelhante honra. Não se sabe muito bem o número de alunos que existiam nesta instituição, pensando-se que deveriam ser por volta de algumas centenas.
As condições em que se desenvolviam os estudos eram para a época insuperáveis, vindo a ter um significado histórico universal. Segundo se pensa, o Museu era constituído por dez laboratórios de investigação (cada um deles dedicado a um assunto diferente), jardins botânicos, um jardim zoológico, salas de dissecação e um observatório.
A direcção do Museu estava entregue a um grande sacerdote das musas (esta instituição tinha carácter religioso) e a um presidente que se ocupava da parte administrativa.
Mas a glória do Museu era, sem dúvida, a sua magnífica Biblioteca.
 

Fundação de Alexandria

Os Egípcios acolheram Alexandre com entusiasmo. Viam nele mais do que um conquistador, um libertador que aparecia para pôr fim ao duríssimo domínio persa. Por seu lado, Alexandre, como prova de respeito para com a civilização egípcia, dirigiu-se ao oásis de Siwa para receber do deus Ámom-Rá a consagração como faraó legítimo.
Foi durante essa viagem que se deteve para fundar, no extremo ocidental do Delta, sobre o mar, uma grande cidade (a primeira de uma longa série) à qual quis dar o seu nome. O seu plano consistia em erigir uma cidade sumptuosa que deveria ser, não só o núcleo do seu poder, mas também um centro de cultura. Alexandre Magno morreu antes de ver concluída a obra. Foi Ptolomeu, seu sucessor, quem continuou o seu ambicioso plano.


Estátua de Alexandre no Egipto, representado como faraó.

Nascia assim Alexandria no Inverno de 332-331 a.C., no local de uma antiga aldeia de pescadores e pastores (chamada Rhakotis), a Oeste do delta, no istmo entre o mar e o lago Mareótis, perto do braço Canópio do Nilo.
Alexandria, estava magnificamente situada, na encruzilhada das rotas navais, fluviais e terrestres de três continentes: Europa, África e Ásia. Desta forma, aquela que será a capital cultural do Helenismo, pelo menos durante três séculos, torna-se rapidamente na maior cidade comercial do mundo.

A arquitectura de Alexandria

      A tradição (bastante controversa) atribui a planificação da cidade de Alexandria ao arquitecto e urbanista Dinócrates de Rodes, o mesmo que, ao que parece, tinha projectado a reconstrução do Artemísion de Efeso, no tempo de Alexandre Magno.
Duas grandes avenidas: a avenida norte-sul e a avenida este-oeste, dividiam a cidade em 4 bairros principais, denominados pelas 4 primeiras letras do alfabeto grego. A artéria principal (este-oeste), chamada Canópica, tinha 7 quilómetros e meio de comprimento e 30 metros de largura e era ladeada por passeios. A artéria norte-sul desdobrava-se em duas largas áleas separadas por um renque de árvores.


Plano da arquitectura cidade


A configuração da cidade era geométrica. As ruas, de cada um dos seus 4 bairros, eram ortogonais. Dado o clima quente e seco característico daquela região, as ruas eram estreitas para darem origem a mais sombra. Na realidade, não eram necessárias ruas mais largas pois só em dias de festa a circulação era intensa. A cidade construiu-se muito rapidamente distinguindo-se das outras cidades egípcias por ter sido edificada não em tijolo, mas em pedra.
O palácio real dos Ptolomeus (Bruquian, como se chamava), cobria por si só cerca de um quarto da cidade, todo ele construído com mármores importados. Contudo, a sua arquitectura, ainda que majestosa, em nada se assemelhava aos conjuntos monumentais das mansões faraónicas.
Para além deste imenso palácio, a Neópolis, ou seja, a cidade nova, incluía diversas outras grandes construções: jardins, o Museu, a Biblioteca e Teatro. A Leste, no subúrbio de Elêusis, situavam-se o ginásio, o estádio, o Hipódromo e um cemitério; a Oeste, a necrópole principal ao longo do canal que liga Alexandria a Canopo.  Nesta zona existiam ainda belos jardins e moradas sumptuosas onde, segundo o testemunho de Estrabão, se vivia alegremente.


Outra planta da cidade, onde se vê a localização possível dos palácios reais,do Hipódromo, do Estádio Canópico e do Teatro.

Quer isto dizer que, em Alexandria, naquela época, se podia frequentar o Ginásio, os diversos banhos públicos ou admirar a colina artificial dedicada ao deus Pã. Poderíamos ainda admirar outros monumentos como o templo de Serápis, o templo de Poseidon e o grandioso mausoléu de Alexandre.

A vida em Alexandria 

Segundo um testemunho de Estrabão, a cidade tinha, no início da era cristã, mais de um milhão de habitantes. Era a cidade mais povoada do mundo. No interior da sua cerca, construíram-se casas de vários andares (as casas torre que nós conhecemos hoje através de mosaicos). Havia, inclusivamente, casas de aluguer, com apartamentos, o que nunca acontecera antes em nenhuma cidade grega.
Era grande a preocupação com o conforto e com a limpeza. Por exemplo, a água era distribuída por uma rede cerrada de canalizações ligada ao canal que trazia água do Nilo.
A cidade administrava-se a si própria, pelo menos aparentemente. Conhecem-se duas assembleias: a boulê, criada por Alexandre, e a ekklesía. O magistrado mais importante era o ginasiarca, representante dos cidadãos e defensor das liberdades.
A vida em Alexandria era animada, barulhenta e frenética, como prova a descrição de uma provinciana de Siracusa, num dia de festa em Alexandria:


   "Meu Deus!, tanta gente! Onde vamos e como vamos atravessar esta multidão? Formigas sem número e sem fim! Realmente Ptolomeu, belas coisas nos fazes desde que teu pai está entre os deuses. Acabaram-se os gatunos que roubam quem passa, escapando-se à egípcia!...(uma coluna de cavaleiros alcança as mulheres. Empurrões). Gorgô querida, que vai ser de nós? Os cavalos de armas de rei! Amigo, não me esborraches. (...) Ainda bem que o pequeno ficou em casa!"
Cit. in Bonnard (1972: 234)
Ali eram possíveis todos os prazeres, mesmo os menos inocentes. O povo era turbulento. O seu espírito de revolta teve bastantes oportunidades de se manifestar durante diversas querelas dinásticas, nomeadamente, por altura da intervenção de Júlio César.  Segundo um poema de Herondo:


"Morada certa do Amon
É o Egipto.
Tudo aqui se encontra
Novo ou velho:
Riqueza, prazer, poderio, fama,
A Primavera eterna.
Ouro, vinho, mocidade, sapiência
O santuário do divino par real
O Templo das Musas"
Cit. in Ferguson (1973: 32)


A face de Alexandre cunhada em moedas de Creta, Alexandria e Pérgamo

O Porto de Alexandria

Para fazer de Alexandria um centro de comércio de primeira grandeza, foi necessário dotar a cidade com as estruturas e os aperfeiçoamentos necessários. Como o porto da cidade não era satisfatório, Alexandre mandou construir um porto artificial entre a costa e a Ilha de Faros que se encontrava aproximadamente a mil metros da margem. Esta ilha foi unida ao continente através de um paredão, o Heptaestádio (um dique com sete estádios de comprimento, aproximadamente 1200 m). A baía ficava assim dividida em dois portos: a leste, o porto de guerra, os arsenais, os estaleiros navais e o porto pessoal do soberano. A oeste, o porto mercantil - Eunostos - que significa bom regresso. Duas aberturas existentes no dique permitiam aos navios passar de um porto para o outro. Este duplo porto de Alexandria foi mais tarde copiado em várias cidades helenísticas.


Planta da cidade de Alexandria na qual se podem ver os dois portos separados pelo Heptaestádio com os seus dois passadiços.

Farol de Alexandria


Farol de Alexandria
              

O arquitecto Sóstrato de Cnido levantou, na ilha de Faros, o primeiro farol do mundo. Com cerca de 120 metros de altura e equipado com todos os instrumentos mecânicos então conhecidos para protecção da navegação era, inclusivamente, capaz de efectuar previsões meteorológicas. A sua luz era alimentada por lenha resinosa, içada por máquinas hidráulicas que, por uma combinação de espelhos côncavos, se dizia ser visível a mais de 50 Km de distância.


Reconstituição do Farol de Alexandria

O farol dispunha ainda de engenhos que assinalavam a passagem do sol, a direcção do vento e as horas. Estava equipado com sinais de alarme accionados a vapor que se faziam ouvir durante o mau tempo, bem como com um elevador que permitia o acesso ao cimo da torre. Possuía também um periscópio gigante, por meio do qual um vigia podia observar embarcações que se encontrassem para além do horizonte aparente. Este farol, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, foi destruído por um terramoto no século XIV.

Moeda de Alexandria do séc.II d.C. com a representação do Farol

Império de Alexandre Magno


Alexandre, o Grande

Alexandre, o Grande

 
Discípulo de Aristóteles, o mais célebre filósofo grego, Alexandre Magno aprendeu com ele as ciências naturais, a medicina e a eloquência.


Alexandre Magno


Aristóteles


Alexandre era inteligente e caprichoso. Possuía uma ambição desmedida, uma imaginação poderosa e as qualidades superiores de um verdadeiro chefe guerreiro. Era também conhecido pelo seu feitio violento e impetuoso e por ser invadido frequentes vezes por uma espécie de superstição religiosa, herdada possivelmente de sua mãe Olímpia. A estes dotes de espírito, aliava uma resistência física invulgar, uma força hercúlea e uma vontade de ferro. Tinha a paixão da música e da poesia. Admirador entusiasta dos heróis da Ilíada, sonhava tornar-se num novo Aquiles. Estava talhado para conquistar um grande império.
Senhor do poder após a morte do pai, Alexandre dirigiu-se à Grécia e fez-se aclamar generalíssimo da Liga de Corinto. Em seguida, promoveu uma expedição contra os bárbaros que ameaçavam as fronteiras norte da Macedónia.
Quando caminhava em direcção ao Danúbio constou, na Grécia, que falecera. Esta notícia despertou o patriotismo dos Tebanos que se revoltaram e cercaram a guarnição Macedónica. Alexandre suspendeu a campanha, desceu à Grécia, tomou Tebas, destruiu a cidade e vendeu 30 mil Tebanos como escravos. Só poupou os templos e a casa do poeta Píndaro, em sinal de respeito pela religião e pela cultura helénica.
Este acontecimento convenceu Alexandre de que era difícil acabar com o espírito de independência dos gregos. Só uma expedição contra os persas, pensou ele, seria capaz de lhes fazer esquecer a liberdade perdida. Retomou, por isso, o projecto de seu pai e preparou-se para a conquista do Império Persa.

O Exército de Alexandre

O exército de Alexandre, composto de cerca de 32 mil homens, pôs-se finalmente em movimento em 334 a. C.
Após a travessia do Helesponto, Alexandre penetrou na Ásia Menor, visitou as ruínas de Tróia, em memória de Aquiles, o seu herói preferido, e aproximou-se de Granico, em cujas margens derrotou os persas. Em seguida, depois de haver conquistado várias cidades, partiu para o sul, derrotou, na batalha de Isso, o exército persa de Dario III, tomou a Fenícia e marchou em direcção ao Egipto, onde fundou a cidade de Alexandria.

Batalha de Isso segundo um mosaico da época romana, encontrado em Pompeia. À esquerda, Alexandre e, ao centro, o seu adversário Dario III.


De África voltou novamente à Ásia. Bateu os persas em Arbela, entrou na cidade de Babilónia, onde foi magnificamente recebido, e correu em perseguição de Dario que, entretanto, morria assassinado.
Depois destes sucessos, Alexandre, que pensava já na conquista da Índia, pôs-se em marcha para Oriente e tomou o Pendjab.  Aí, o seu exército, extenuado por tão longa caminhada, recusou-se a continuar.
Alexandre desceu então o rio Indo e regressou a Babilónia onde morreu passado pouco tempo (323 a.C.).
O projecto grandioso que concebera de fundir num único Estado, a Península Balcânica, a Ásia e os países do Mediterrâneo Oriental terminara aí. Tinha apenas 32 anos.

Sarcófago de Alexandre (séc.  IV a.C., museu de Istambul). 

     

A conquista do Império

O Império de Alexandre tinha uma dimensão majestosa. Na Europa, ia do sul da Grécia às margens do Danúbio. Na África, compreendia o Egipto e parte da Cirenaica. Na Ásia, alargava-se da Índia ao mar Negro e mar Caspío, do Mediterrâneo Oriental às proximidades do rio Indo.

 Mapa que ilustra as conquistas de Alexandre


Para manter este imenso império, Alexandre tomou uma série de medidas políticas de grande alcance. Começou por estabelecer uma política de união entre vencidos e vencedores por meio de casamentos. Ele próprio deu o exemplo casando com uma persa. Depois, abriu as fileiras do exército aos soldados e oficiais inimigos, fundou cidades e criou colónias militares, destinadas a espalharem a civilização entre os povos bárbaros. Cercou-se de sábios e artistas que encarregou de darem a conhecer a cultura helénica. Vulgarizou o uso da língua grega, desenvolveu o comércio e a indústria e intensificou as relações entre o Oriente e Ocidente.

Busto de Alexandre.


“Era sua vontade tomar toda a terra habitável sujeita à mesma razão e todos os homens cidadãos do mesmo governo.”
Plutarco, cit. in Bonnard, 1972, II :203

Atendendo às qualidades de organizador de que deu provas durante a sua curta existência, se Alexandre tivesse vivido por mais anos, é natural que o seu império se mantivesse, apesar de composto por povos tão diferentes na raça, no feitio, nas tradições e nos costumes. Mas, desaparecido o seu fundador, desapareceu também a força que mantinha unido o seu império. As diversas províncias começaram de imediato a manifestar desejos de independência, desejos esses que os respectivos governadores, todos generais de Alexandre, acalentaram.
É assim que, vinte e dois anos depois da morte de Alexandre, os generais retalharam o império em seu próprio proveito (301 a. C.). Dos destroços do império vieram a formar-se quatro reinos que passaram a ter vida independente. Para um lado, ficou a Península Helénica com a Macedónia; para outro, o território que, da Síria, avançava até ao Indo; para outro ainda, a zona que, da Ásia Menor, corria até ao Danúbio e, finalmente, o Egipto com a parte da Ásia que ia da Arábia até à Palestina.

Felipe da Macedónia II

A história dos macedónios começou a delinear-se por volta do século VII a.C.. Eram de origem ariana ligados ao tronco helénico pelo ramo dórico. Porém, no século V a.C., naquela terra de férteis planícies ladeadas por montanhas situada ao norte da península grega, permaneciam ainda escassos os sinais de civilização.


O Mundo Helenístico, 240 a. C.


Os macedónios eram rudes e duros. Os seus governantes eram semelhantes aos guerreiros dos tempos homéricos cujo poder tinha por base o prestígio pessoal. Embora os macedónios não pertencessem ao mundo dos Helenos, razão pela qual alguns gregos consideravam os macedónios como bárbaros, os reis macedónicos afirmavam-se descendentes de famílias gregas (uma das quais com origem em Héracles), reivindicação que era em geral aceite.


Filipe da Macedónia


Em meados do século IV (359 a.C.) subiu ao trono da Macedónia Filipe II, que havia passado três anos em Tebas como fiador da aliança que seu pai contraíra com aquela cidade. Aí havia aprendeu a admirar a cultura grega, em particular os métodos militares que permitiram aos gregos vencer os persas. Filipe II pôde também observar de perto as  rivalidades que existiam entre as várias Cidades-Estado e que estavam na origem da divisão entre os gregos.
Ao assumir o governo da macedónia, Filipe começou por reformular inteiramente o seu poder militar. Organizou um poderoso exército composto de infantaria e cavalaria. Os infantes, recrutados entre os camponeses, foram armados de lança (sarissa) de comprimento variável conforme o lugar assinalado a cada combatente na falange, ou seja, no batalhão formado por 10 mil homens, distribuídos por 16 filas, com uma frente que podia atingir um quilómetro. Era a primeira etapa de um plano com que pretendia unificar, política e militarmente, todo o mundo grego. O  objectivo final era a conquista da Pérsia.


A Falange em acção
Os hoplitas formavam a falange, ficando cada um deles coberto pelo escudo do seu vizinho. Os peltastas, menos armados, cobriam os flancos com a ajuda da cavalaria situada nas extremidades.
Os peltastas atingiam o inimigo com as suas lanças. Retiravam-se depois para a rectuaguarda da falange que avançava em bloco e se lançava então sobre o inimigo.
Enquanto durava a luta corpo a corpo, os peltastas e a cavalaria cercavam os flancos. O inimigo era batido e debandava perseguido pela cavalaria.

A táctica da Falange



A falange Macedónica


Mas, mais que um conquistador, Filipe era um estadista. O seu respeito pela cultura helénica era indiscutível. A atestá-lo o facto de ter convidado o filósofo Aristóteles para percetor de seu filho Alexandre e adoptado o dialecto ático do grego como idioma oficial. Sabia e calmamente, aguardou o momento oportuno de intervir numa Grécia esfacelada pelas rivalidades entre as Cidades-Estado.

Estátua de Aristóteles


Em Atenas a maior parte da população apoiava os líderes democráticos, sobretudo Demóstenes, contra as pretensões de Filipe. Este, por seu lado, era apoiado pela facção ligada à nobreza e pelo orador Isócrates.  Como toda a Grécia, também Atenas estava dividida.
O último acto da tragédia, animado pela dramática luta entre Filipe e Demóstenes, tem lugar em Queroneia. Demóstenes procura reunir à volta de Atenas todo o Peloponeso e prepara-se para a guerra. Mas, em Queroneia, no dia 2 de Agosto de 338 a. C., a falange e as cargas de cavalaria macedónicas, brilhantemente conduzidas pelo jovem Alexandre (então com apenas 17 anos), derrotaram os Atenienses e os Tebanos que, sem sucesso, se bateram bravamente.
Na sequência deste acto que deu à Macedónia a posse da Grécia, Filipe destruiu Tebas. Mas poupou Atenas. Atenas fora vencida sem desonra e os seus habitantes tiveram a elegância de confiar a Demóstenes o cuidado tradicional de fazer o elogio dos mortos.
Poucos anos depois, Filipe era assassinado em Pela, capital Macedónica (336 a. C.), precisamente quando se preparava para conduzir uma expedição contra o império persa. O seu filho, proclamando que "nada mudou, excepto o nome do rei", assumiu o poder e realizou o sonho do pai. Ao fazê-lo, difundiu a cultura grega em todo o Médio Oriente e iniciou um período de três séculos de brilhante civilização, conhecido como Época Helenística.